303 anos de Santo Ângelo Custódio

Movimento pró-memória visitou possível local da primeira redução de Santo Ângelo.

Há 303 anos era fundado o último dos sete povos missioneiros: a redução jesuítica consagrada ao Anjo Custódio, ao anjo da guarda – nascia San Angel Custódio.

Para dar início a nova redução chegavam famílias guaranis, acompanhadas do padre jesuíta Diogo Haze, vindos da redução de Concepción de la Sierra, localizada hoje no território argentino.

No dia 12 de agosto de 1706 era registrado o primeiro nascimento na nova redução.

Por isso, este dia marca o aniversário da redução jesuítica que deu origem ao município de Santo Ângelo.

Neste ano, em razão da Gripe A, toda a programação da Semana Cultural, que seria promovida nessa semana, foi adiada.

Dessa forma, ontem – dia do aniversário – o Movimento Pró-Memória organizou uma atividade para que a data fosse lembrada.

Foi promovida uma visita à localidade de Serra de Baixo, nas proximidades da confluência dos rios Ijuí e Ijuizinho, conhecido como “forqueta”.

Nesse local, segundo o professor e escritor Mário Simon, possivelmente tenha se instalado provisoriamente a redução de San Angel Custódio.

Lá, na margem esquerda do Rio Ijuí, os moradores na nova redução teriam permanecido por alguns meses – menos de um ano.

“Não restam muitas dúvidas de que isso tenha mesmo acontecido. Há registros de três batismos de neófitos neste local entre os rios Ijuí e Ijuizinho”, afirma o professor.

Somente no ano seguinte – 1707 – teria acontecido a instalação definitiva da redução onde hoje localiza-se o Centro Histórico de Santo Ângelo.

Para o professor Simon essa é uma questão intrigante.

“Por que estariam lançando os fundamentos de uma redução ali, se em seguida acharam o local não apropriado?

As hipóteses de que na dita forqueta dos rios Ijuí e Ijuizinho o grupo que instalava a redução de Santo Ângelo Custódio esteve ali por pouco tempo em virtude do período de intensas chuvas, ou porque é um local muito adverso para o crescimento de um povo, têm como interrogações duas questões interessantes:

se o grupo veio por terra, e devia instalar-se no local definitivo, à margem direita do rio Ijuí, onde ainda está hoje, por que o grupo não veio por ali desde sua origem, isto é, pelo lado direito do rio?

E se veio em barcos, hipótese também possível, por que não desembarcou já na margem direita do mesmo rio?”, questiona o professor.

Dessa forma, para o professor, as razões da mudança de local devem estar ligadas a questões de produção da erva-mate – cujos vários e extensos ervais ficavam ao norte, à criação de gado e à fácil possibilidade de atravessar os rios.

Conforme a presidente do Movimento Pró-Memória, Maria Izabel Cattani, o objetivo da visita foi, “além de mostrar aquele local, de profundo significado histórico, também disseminar o conhecimento sobre a história local”.

Ela ressaltou ainda que entre os objetivos do movimento estão a promoção da educação, da ciência e da cultura.

Estão entre as ações promovidas uma campanha de doações de objetos do período reducional ao Museu Municipal.

“Além disso, atuamos sempre na defesa da conservação do patrimônio cultural do município”, frisou.

Participaram da visita à forqueta, além dos integrantes do Movimento, pessoas ligadas à área e lideranças do município, entre elas o prefeito em exercício Adolar Queiroz.

INSTALAÇÃO DA REDUÇÃO DE SANTO ÂNGELO CUSTÓDIO E O IMAGINÁRIO  POSSÍVEL (excerto)

Mário Simon

A FUNDAÇÃO DA REDUÇÃO DE SANTO ÂNGELO E A ARTE

– “A data e o local da instalação da redução de Santo Ângelo Custódio sempre foi envolta em polêmica. Muitas questões intrigavam, e ainda intrigam. Por que os padres trouxeram 2.879 pessoas de onde estavam arranchadas (Concepción de la Sierra) para dar início à nova redução nestas plagas ao lado esquerdo do rio Uruguai, na “forqueta” dos rios Ijuí e Ijuizinho, se o lugar escolhido não servia para o fim a que se destinava?  Por que há dúvidas quanto ao ano da fundação, se temos o dia, o mês e o ano dos primeiros batizados nessa redução? Se as famílias trazidas para a instalação da redução de Santo Ângelo Custódio eram para ser conduzidas para o local definitivo (onde hoje está a cidade de Santo Ângelo), por que foram desembarcadas à margem esquerda do rio Ijuí? E elas foram desembarcadas ou vieram por terra? Essas são algumas das perguntas que ainda não encontraram respostas definitivas e, talvez, nunca serão encontradas.”

Esse texto, transcrito de um artigo meu publicado no “Caderno dos 300 anos” do Jornal das Missões, de Santo Ângelo, já traça, por sua natureza significativa, elementos que conduzem ao que chamamos de “mágico”. Se examinarmos o conteúdo e dermos rédeas à imaginação, é possível dar respostas fantásticas para tudo o que ainda não está respondido pela razão. É disso que se alimenta o mágico. Do mistério que envolve fatos, relevantes ou não, e que têm significado para toda uma coletividade. Os elementos históricos que dizem respeito à Fundação da Redução de Santo Ângelo Custódio, embora ainda não bem solucionados, tanto conduzem para a polêmica histórica como para o campo fértil da fantasia, mas ambos misteres partem de um fato que tem base no seio de um passado comum. De um lado, a polêmica histórica sustentar-se-á da pesquisa; de outro, a fertilidade desse solo para o florescimento do mágico sustentar-se-á de todas as possibilidades que o espectro missioneiro dispõe. E, nesse caso, a abrangência do mágico é bem maior que a do lógico, vale dizer, dos elementos efetivamente históricos. Para alimentar essa afirmação, seguimos com outro excerto do texto do Caderno dos 300 anos, acima citado. 

-“Quanto ao local da instalação da redução em 1706, é indicado como sendo próximo à forqueta dos rios Ijuí e Ijuizinho. Isso significa que foi em determinada altura da foz do rio Ijuizinho, onde teriam permanecido menos de um ano, instalando-se definitivamente onde está hoje a cidade de Santo Ângelo, no ano seguinte, 1707. Esta, parece, é a mais intrigante questão. Não restam muitas dúvidas de que isso tenha mesmo acontecido. Há registros de três batismos de neófitos neste local entre os rios Ijuí e Ijuizinho. Mas por que estariam lançando os fundamentos de uma redução ali, se em seguida acharam o local não apropriado? E foi esta mesmo a razão da transferência?

As hipóteses de que na dita forqueta dos rios Ijuí e Ijuizinho o grupo que instalava a redução de Santo Ângelo Custódio esteve ali por pouco tempo em virtude do período de intensas chuvas, ou porque é um local muito adverso para o crescimento de um povo, têm como interrogações duas questões interessantes: se o grupo veio por terra, e devia instalar-se no local definitivo, à margem direita do rio Ijuí, onde ainda está hoje, por que o grupo não veio desde sua origem, Concepción, pelo lado direito do rio? Vale dizer aqui que Concepción ficava, no lado hoje argentino, não muito distante à junção do rio Ijuí com o rio Uruguai. E se veio em barcos, hipótese também possível, por que não desembarcou já nas margens direitas do mesmo rio? E vieram mesmo todas as 2.879 pessoas no ano de 1706, ou apenas um grupo de vanguarda encarregado de preparar a transmigração dessa gente, como era de costume quando da instalação de uma nova redução?

Quanto à impropriedade do local na tal forqueta dos rios mencionados, quem vai até lá (para os santo-angelenses se localizarem, na antiga “barca do Zimpel”), verá que não é charco, não é dado a inundações catastróficas, salvo nas pequenas várzeas ao longo do rio, onde ninguém iria construir uma cidade. Embora pareça montanhosa, a menos de mil metros da foz a paisagem é belíssima, abrindo-se para o sul em terreno quase plano, repleto de águas que descem tanto para o rio Ijuí como para o Ijuizinho. Por muitos quilômetros, até chegar na cidade de Entre-Ijuís, pode-se divisar boa parte da cidade atual de Santo Ângelo, além das curvas do rio e duas ou três corredeiras, conhecidas como locais que dão passo em períodos de águas baixas. As razões da mudança de local devem estar ligadas mesmo a questões de produção da erva-mate (cujos vários e extensos ervais ficavam ao norte), à criação de gado (economia que nunca foi o forte da redução de Santo Ângelo Custódio), e à vadeabilidade dos rios.”

A carência de respostas, o caráter utilitário das mesmas, o sentido épico de uma migração em massa por terras inóspitas, a dúvida, tudo leva a evidenciar a maior abrangência dos aspectos ditos mágicos em relação aos fatos históricos que carecem de fundamentação. A fantasia dispensa a fundamentação comprobatória, embora parta do mesmo princípio, isto é, do mesmo elemento factual e do mesmo sentimento coletivo que, no caso, é a fundação do povo de Santo Ângelo Custódio.

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